Prezados jornalistas e “povão” em geral
Escrevo estas mal traçadas linhas porque não suporto mais ver vocês perdendo tempo ao criticar o Senado, a Câmara e os políticos em geral. Está na hora de alguém (no caso, eu) mostrar como vocês são ingênuos, esquemáticos e (por que não dizê-lo?) burros. Ficam reclamando nos jornais e TV que os parlamentares tem verbas sem fim, dezenas de assessores, notas fiscais falsas, aviões para as amantes, roubalheiras com empreiteiras e outras minúcias. Vocês jornalistas não entenderam ainda que o mundo de um deputado ou senador é diferente do mundo humano? Vocês não sabem o que é a mente de um deputado.
Nós somos escolhidos entre os mais espertos dentre os piores e boçais. A estupidez nos fornece uma estranha forma de inteligência, uma rara esperteza para golpes sujos e sacos-puxados. Nós somos fabricados entre angus e feijoadas do interior, em favores de prefeituras, em pequenos furtos municipais, em conluios perdidos nos grandes sertões e descendentes de coronéis e de ricos. Nós somos a covardia, a mentira, a ignorância. Nós somos a torta escultura feita de palha e barro, de gorjetas, de sobras de campanha, de canjica de aniversários e água benta de batismos.
Para nós, "interesse nacional" não existe.
Querem o quê? Que pensemos no interesse de um "grande Outro" que nem conhecemos? Ora, poupem-nos! Isso não existe dentro deste Congresso e em político- só na imaginação de um ou outro parlamentar intelectual, que se sente aqui como donzela em puteiro. Estamos aqui para lucrar; se não, qual a vantagem da política? Somos uma frente natural contra o "progresso". Defendemos o atraso e a lentidão em todas as siglas, do DEM ao PT e, principalmente, no delicioso paraíso de pecados do PMDB, todos unidos contra o tal "interesse nacional".
Nós temos um tempo diferente do seu. Sabemos que os brasileiros vivem angustiados, com sensação de urgência. Problema deles: apressadinhos comem cru. Este termo "urgência" quer nos transformar em servidores da sociedade. Ela é que nos serve.
Em que nos interessa a pressa nacional? Nosso conceito de tempo é outro. É doce morar lentamente dentro dessas cúpulas redondas, não apenas para maracutaias. Queremos saber se nosso curralzinho está satisfeito conosco. Temos o direito de viver nosso mandato com mansidão, pastoreando nossos eleitores, sentindo o frisson dos ternos novos, dos bigodes pintados, das amantes nos contracheques, das imunidades para humilhar garçons e policiais.
Detestamos que nos obriguem a "governar". Não é preguiça - porque gastamos mil horas em comissões e conchavos - é por amor ao fixo, ao eterno. E preciso confessá-lo: nós temos a fantasia sexual de "sermos" a sociedade.
Será que vocês não entenderam ainda que nada nos dobrará? Que nós não combinamos bem com estas cúpulas futuristas do Niemeyer, pois só pensamos em preservar o passado? Futuro para nós é mais grana no bolso e mais "pudêr", sempre. Será que vocês não sacaram ainda que nós não estamos na Câmara de Londres, nem na França ou USA? Nossa única "democracia" é um vago amor pelos amigos, uma poética queda para a camaradagem, a troca de favores, sempre com gestos risonhos, abraçando-nos pela barriga, na doce burguesia de uma sociedade secreta.
Vocês não imaginam a delicia de sermos chamados de "canalhas", o prazer de sentir-se superior a xingamentos, superior à ridícula moralidade de classe media. Nossa única moralidade é vingar-nos de inimigos, cobrar lealdade dos corruptores e exigir pagamentos de propinas em dia. Vocês não conhecem a felicidade de chegar em casa, com os filhinhos vendo TV, com a grana quentinha no bolso - uma propina gorda de empreiteira e comer do bom e do melhor e dar as sobras aos necessitados. Vocês não sabem o que é bom...
Me dá muito prazer também, colunistazinhos de jornal e tagarelas da TV, rir de vossos rostos retorcidos, no afinco de achar o adjetivo que poderia nos desmascarar...Nada nos atinge. Vocês são uns rancorosos...Têm inveja de nossos privilégios e imunidades, tem inveja de nosso cinismo, de nossa invulnerabilidade.
Às vezes, até acho que fazemos um desafio proposital ao desejo golpista de muitos, para ver até onde os defensores de uma nova ditadura aguentarão nossa falta de vergonha. Por vezes, alguns fracotes da nossa turma têm uns "frissons" de responsabilidade, uns discursos mais acesos, mas tudo acaba quando vocês desligam a câmera, numa conversinha no corredor, nas piadas dos saguões, nas coxas de uma secretária que passa.
O Lula já entendeu tudo...Ele é mais inteligente que vocês. Ele sacou que não adianta nos contestar. Por isso, ele nos usa gostosamente para seus fins pessoais...Grande Lula! Que bem que ele nos fez... Lula nos fez florescer como nunca antes neste país, desde Cabral...
Nós nos refazemos como rabo de lagarto; vejam o Renan, líder do PMDB, vejam Collor, Roriz, Lobões, Maluf, todos regidos pelo grande timoneiro do atraso, o eterno coronel Sarney.
Ouso mesmo dizer que estamos até defendendo uma cultura! O país não se governa apenas por novos slogans da moda; um país são séculos de hábitos e cacoetes sagrados. Vocês sabem o que é a beleza do clientelismo? Sabe o que são séculos de formação ibérica, onde um amigo vale mais que a dura impessoalidade dos cruéis saxões? A amizade é mais importante que esta bobagem de interesse nacional! O que vocês chamam de irresponsabilidade e corrupção do Congresso é a resistência da burguesia brasileira, é a preservação do passado!
Há em nós a defesa de 400 anos de patrimonialismo! E tem mais: tentem esculachar o Congresso... Cuidado! Sereis chamados de "fascistas", de amigos da ditadura... A democracia é para nós apenas um pretexto para a zorra absoluta.
Ha ha há!!! Que ironia: nós somos o símbolo da liberdade! Ha ha ha!! Vocês me dão pena... Acham que podem nos atingir...somos eternos. Desistam seus, idiotas!
Cordialmente,
Sarneys, Calheiros, Mellos, da Silvas, Malufs, Temers, PMDBs, PTs, DEMs, PSDBs, PTBs, etc......
Diretor geral do Atraso, o diretor do Departamento do Baixo clero, diretor geral de negócios escusos e os presidentes do Departamento de Pilantropia do senado e da câmara (em minúsculos mesmo).
Arnaldo Jabour
terça-feira, 28 de abril de 2009
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